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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Jaz de cera



Jaz de cera
Por Caroline Moreira


Ela era feito giz de cera, desgastada nas mãos de amadores. Serviu de azul-turquesa, para o céu, embora não gostasse da forma como a esfregavam no papel. O amarelo-ouro coloriu o dia ensolarado, mas os raios causaram uma queimadura. Certamente, não se preocuparam. É só um giz de cera! Não existe forma de que isto o fira. Apontaram. A lâmina talhou em suas extremidades, modelando de acordo com o que precisavam no momento. Púrpura. Sem que precisasse cobrir alguma área em branco, fizeram-na sangrar até a última gota. As cores desbotaram e o giz, jaz. Nunca mais viu cor alguma.


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terça-feira, 12 de abril de 2016



O Último Apito
Por Lika Akamatsu 


Esse sempre foi o momento que mais quis conhecer, apesar de temê-lo um pouco. Estudei toda a minha vida para salvar outras vidas e garantir que a maioria não chegasse a este ponto. Meus pulmões já não estão funcionando como deveriam, o sangue já não corre tão rápido pelos vasos sanguíneos, os impulsos nervosos também já estão ficando fracos, não sinto nada disso, entretanto, só imagino que esteja acontecendo isso. Aliás, talvez eu saiba o que está acontecendo em cada canto do meu corpo. Se isso é triste ou não, eu não sei bem...

Imagino ter mais uns vinte minutos de vida; talvez mais, talvez menos, já não sei estimar... É a primeira – e única – vez que vivencio isso, então acredito que tudo seja possível. Eu queria poder ver mais uma vez minha mulher, faz tempo que não a vejo... Ah, ela é linda. Espero poder sentir um último toque das mãos da minha filha; será que ela chega a tempo? Faz uns meses que não nos encontramos, ela faz pós-graduação noutro estado.

É estranho. As pessoas devem ter a imagem de um senhor não muito velho inconsciente, mas ora, estou conseguindo pensar comigo mesmo, talvez aquilo tudo que estudei sobre o corpo humano estivesse errado? Não preciso mais me preocupar... Quem sabe isso não seja um sonho, não dá pra afirmar nada, não estudei a morte em si, só como chegamos até ela. Depois disso nenhum médico pode dizer o que acontece. A medicina estuda a vida, afinal.

Queria poder acordar amanhã mais uma vez, mas agora já não tem mais volta... Se bem que faz tempo que não acordo de verdade. Talvez eu aproveite essa ida ao outro plano – se ele existe mesmo – para me desculpar com aqueles que não consegui salvar. Quem sabe eu não reencontro o Robertinho, que saudades desse velho! Lembro-me do quão arrasado fiquei com sua ida, senti-me culpado por não poder ir ao seu enterro. Aliás, não pude ir ao enterro de nenhum deles...

O mais aterrorizante é estar tão só nesse “universo particular pré-morte” e ao fundo ouvir os apitos do monitor cardíaco; se estivesse na sala de cirurgia e fosse um paciente na mesma situação, diria que estava bem, mas olhe só, já sei que vou morrer; será que meus pacientes já tinham essa certeza momentos antes também? Não sei quanto tempo passou, nem quanto me resta. Talvez pouco, os apitos estão vindo num intervalo menor...

Lembro-me da época de jovem, do colégio, da faculdade, das aulas de anatomia que tanto amava, do meu melhor amigo que passou a me odiar por eu ter ficado com a garota que ele gostava (e eu casei com ela!), do nascimento da minha filha, de alguns muitos pacientes, daqueles que não pude salvar, daqueles que se salvaram por eles mesmos e eu só ajudei, da primeira morte que presenciei...
Essa é a última...

O monitor daria o apito final...

Eu não pude sentir as mãos de minha filha mais uma vez, espero que a lenda de que o espírito sai do corpo seja verdade, quero me despedir devidamente das mulheres de minha vida. Gostaria de pedir perdão por partir tão de repente. Mas a morte é assim mesmo, eu aprendi. Silenciosa.
Agora.

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domingo, 10 de abril de 2016

Desculpe



Desculpe
Por Eduarda Gomes


Desculpe, não era para ser assim. Eu deveria ser imune. Deveria ter aprendido. Deveria ter entendido. Deveria estar bem agora – vendo um filme ou comendo pipoca. Eu deveria ouvir músicas e não me lembrar de você. Eu deveria não te reservar um espaço nos meus sonhos e um pouquinho de esperanças. Eu deveria não ler mensagens antigas e sorrir feito uma menininha que acordou na véspera de natal.

Mas é assim.

Sinto muito por ser tão masoquista – por errar e insistir no erro. Por ser tão eu. Por não conseguir. Por evitar. Por não dizer. Mesmo que não correspondido, sou uma cópia de coisas erradas; sou problemática. Sou in-amável.  Sou amadora. Sou incerteza. Sou vento – do tipo ruim. Sou as quatro horas da manha das crises existências.

Você é meio-dia ou duas da tarde quando tem bolinho de chuva. Você é dormir sem hora para acordar e ver filme com pipoca. Você é sol, é nuvem, é vitamina D.  Você é abraço apertado, corpo colado e calor corporal. Você é leve, pluma, azul, bolha de sabão. É fácil, é doce. É meigo. Você é como respirar.

E ela.

Ah, ela.

É arco-íris, aurora boreal, eclipse lunar, cine belas artes, floco de neve, brilho, mar. É sonho vívido, livro de faz-de-conta, canção de ninar. É complexa. É linda. É inconstante. Volta e vai. Sem parar. Ela é a escolha. Ela é desejo. Ela é uma espera de quem não se importa de esperar.

Ela não é o certo, e muito menos eu. Mas ela é o erro que você preferiu amar.

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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Logo nos encontramos


Logo nos encontramos
por Lika Akamatsu 


É assim mesmo, não posso mais nem pensar em te esquecer, porque já não sei como. Tu me confundes mais que Física, é mais complicado que ela; por que não podia ser como Matemática? É complicada, mas ao menos um pouco eu a entendo... Só que nem pra ser assim! Tu me deixaste perdida num limbo de sentimentos, dúvidas e problemas... E não posso mais negar, garoto, eu gosto mesmo de você. Mas eu devo me acostumar com a tua ausência, com monólogos monossilábicos, com um você invisível.
Pude te conhecer um pouco melhor, mas ainda sinto que existem imensidões a se descobrir sobre ti, e só com esse tantinho, posso afirmar que estranho seria se eu não me apaixonasse por você. Teu jeito tão peculiar e diferente é até um charme, as covinhas que se formam ao redor de um sorriso, então! Aliás, que sorriso! A feição aparentemente inocente contrasta com os traços masculinos bem marcados, com as mãos firmes, o olhar desafiador e o beijo fogoso.
Em alguns momentos, pego-me dividindo cobertores contigo, usando teus pés para aquecer os meus gelados, numa noite fria de inverno - ainda mais se for o inverno curitibano! Mas em segundos passa. É rápido e bem cômico. Tu me é tão misterioso que situações assim são inimagináveis e um tanto estranhas. Eu não te imagino de forma alguma, tu sempre me surpreendes, seja da forma mais simples possível. Isso! Surpreendente, você.
Se fosse definir-te em uma palavra apenas, ficaria entre "peculiar" e "surpreendente". Tu estás entre esses dois adjetivos. Talvez num limbo também...? Se estiver, vamos dividir os nossos limbos. Quero ficar um pouco mais com você, sem brincadeiras dessa vez. Não brinque comigo também. Deixa que eu me perca no teu abraço e perca-se no meu, logo nos encontramos, quem sabe. 


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domingo, 3 de abril de 2016

Estrela Decadente

Estrela Decadente
Por Caroline Moreira

           Ela tinha tantos sonhos quanto estrelas no céu, e cada constelação que descobria, eram vidas dispostas em um pedaço de papel. As figuras estampadas no telhado azul do mundo, não passavam de pontos cintilantes, assim, com algum tipo de descuido. Pareciam esquecidas pelo resto das pessoas. Mas cada vez que ela dava atenção por alguns segundos, não havia corpo celeste que ficasse mudo. Porém, o dia amanhecia e a garota se via perdida, um tanto sozinha. Ela passava a noite toda sonhando, e de dia não tinha sono. O seu travesseiro, no entanto, era abarrotado de sonhos.
           Às vezes, ela se sentia como se estivesse debaixo do seu cobertor, numa escuridão total, e ficava confusa se a noite era um véu sobre a cama do céu. Então, entre aquele sentimento que a prendia, sufocava, surgiu um ponto reluzente que a acompanhava. Ela tinha certeza de que os dias eram mais difíceis e obscuros que o anoitecer. Afinal, quando a noite chegava, ninguém enxergava o que ela escondia, ninguém via as lágrimas que inundavam os seus sonhos. Mas ela era uma poeira estelar, e cada vez que se debulhava em lágrimas, restava o pó e ela soprava. Brilhava feito estrela... Decadente.


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Estrela Decadente - SocialSpirit

sábado, 2 de abril de 2016

Menina do cabelo azul


 Menina do cabelo azul
por Marina Rodrigues
Seus olhos misteriosos, suas palavras curtas, seus olhares ilusórios, sua boca puramente puta e seus cabelos azuis, que escorrem pelos seus ombros nus, balançando, tremulando com o assobiar baixinho do vento frio que percorre minha espinha, tentando-me. A menina de cabelo azul que deixa meus dias mais coloridos. Tornou-se meu vício. 
Depois mudou para o rosa, a leve franja recém cortada tremulando com o passar do vento — eu o invejava por poder tocar sem pudor em minha menina. Ela sempre alterando minha existência monocromática. Eu era um mero espectador de seu espectro de cores.
Mas ela era como o rosa cálido que pinta o céu no primeiro avistar da manhã, eu era o azul pálido que pinta o céu no crepúsculo ao fim de tarde. Ela era uma artista! Transformando cada olhar em uma obra-prima. Eu era um alienista, transformando cada podridão da sociedade em dinheiro para o sistema capitalista. Como fazer o oposto me amar? 
Desejo-a e anseio por cada um de seus beijos, seus toques, sua pele nua, seus pêlos eriçados roçando pelo meu corpo. Desejei-a mesmo sabendo o nosso fim, mesmo sabendo que o equilíbrio entre nós não era uma opção, a balança estava desregulada, era o fim da minha paixão. 
Um dia ela entrou em minha vida e disse: 
— O problema é esse: você prefere ver a vida a teus pés e eu...eu prefiro ver em tons pastéis. 


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segunda-feira, 14 de março de 2016

Itifalofobia



Itifalofobia 
Por Caroline Moreira



As manhãs se tornaram um desespero diário, fazer xixi naquela situação parecia improvável, ainda mais porque as suas mãos desajeitadas estavam trêmulas. Bater punheta vendo pornografia parecia distante da sua cruel realidade, apenas de pensar no que poderia acontecer, entrava em um estado de pânico incontrolável. Se ao menos a secretária do trabalho não tivesse seios tão fartos... Caso ele conseguisse controlar essa cabeça que não pensa! Todo o dia é a mesma coisa. O pior foi quando sua namorada tentou o excitar. Foram minutos estressantes, antes que  ele surtasse de vez. Um pau duro é assustador! Você já viu?

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Boneca de Pano


 Boneca de Pano
Por Caroline Moreira

Acolchoado de retalhos, distribuídos em um tecido lânguido. A picada familiar da agulha que invade outra camada e drapeja a epiderme. Das dobras e dos desdobramentos, a lembrança alcança – finalmente! – o posto de esquecimento. A cicatriz da costura desmanchada, nada mais significa de que ela não pôde ser contida. Semelhante a uma boneca de pano, lhe é suturada emoções. Não permitem que ela sinta, e mesmo assim, ela sangra.


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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Para não dizer que não falei das flores

Para não dizer que não falei das flores 
Eduarda Gomes
Capítulo Único - Florir

       O mundo não acabou.
      Eu ainda estou aqui pela metade, ouvindo músicas até tarde e me sentindo um pedaço finito do que já fui um dia. Querendo me tornar água da chuva e me transformar em uma nuvem, mudar a rota do meu dia e cortar o cabelo. Esquecer que te amei um dia e fugir do meu próprio espelho.
       Os dias seguiram.
     Parei de perceber e me lembrar que não me sentia bem. Parei de chorar contra o travesseiro, querendo que tudo explodisse e só sobrasse eu e um espaço não construído. Parei de sentir raiva e saudade de algo inventado e parei de me obrigar a amar algo abstrato.
       E eu continuei aqui.
      Ainda querendo escrever cartas de amor e olhar o sol nascer mesmo que seja para dormir o resto do dia e desperdiçar tudo que sobrou. Mesmo que parte de mim já tenha ficado no meu passado e as flores sejam só feridas não cicatrizadas de algo que nunca deveria ter acontecido. E só aconteceu porque eu fui incapaz de evitar.
       Mas ainda há amor.
       Porque de tudo que acabou – murchou, despedaçou – eu fui à única coisa que ficou.
       E já aprendi a ser feliz só por mim.


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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Conto - Trouxa por Caroline Moreira

                                                                     T   r   o   u   x   a

Por Caroline Moreira
Ela não tinha um coração no peito, ele vivia saindo do lugar. Distribuía canções e versos para quem pudesse acreditar. Tão otimista que chegava a doer, quando nem sabia o que era dor. Ela não podia prever, mas não, não daria certo. Até ouvia os conselhos de amigos. Para de ser trouxa! Eles viam tudo o que ela não enxergava, a vida é toda roxa, cheia de hematoma e cheia de cicatriz. E, mesmo assim, ela distribuía abraços, e nunca era recompensada.
Eles só não sabiam que ela sempre dizia para si mesma: Para de ser trouxa. E que o seu corpo escondia pancadas feias e doloridas, vermelhas, azuis, esverdeadas. Um esboço inacabado cheio de rabiscos, riscos, mal vistos, encobertos pelo tecido da pele. Para de sair distribuindo abraço, porque não há recompensas, e você não é desinteressado, eu sei. Ela só queria em troca, esconder-se na própria toca, sem ninguém incomodar.
Mas a vida é toda roxa, cheia de hematoma e cheia de cicatriz. Machuca, infecciona, retira a casca que protege. Pelo simples prazer de sentir dor. Por ver beleza escondida na dor. Por falta de interesse. Em si mesma.

Postada SocialSpirit: Trouxa