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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Jaz de cera



Jaz de cera
Por Caroline Moreira


Ela era feito giz de cera, desgastada nas mãos de amadores. Serviu de azul-turquesa, para o céu, embora não gostasse da forma como a esfregavam no papel. O amarelo-ouro coloriu o dia ensolarado, mas os raios causaram uma queimadura. Certamente, não se preocuparam. É só um giz de cera! Não existe forma de que isto o fira. Apontaram. A lâmina talhou em suas extremidades, modelando de acordo com o que precisavam no momento. Púrpura. Sem que precisasse cobrir alguma área em branco, fizeram-na sangrar até a última gota. As cores desbotaram e o giz, jaz. Nunca mais viu cor alguma.


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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Enclausurada



Enclausurada 
Por Marina Rodrigues

Ar logo falta em meus pulmões. As paredes parecem diminuir a cada passo descompassado que dou em direção à porta. Enclausurada. Engasgada. Enlatada como uma fileira de sardinhas, dessas que compramos em supermercados.         
Com um medo excessivo, irracional — que aumenta à medida que o tempo escorre por entre os finos nós de meus dedos trêmulos — caminho em direção à saída. É inevitável: devo desmaiar adiante.          
Pânico. Ansiedade. Taquicardia. Suor. Terror. Tremor — Claustrofobia.          
Começo a ver imagens dobradas e penso se não são os barbitúricos engolidos desesperados, no intuito de acalmar o fantasma da fobia que paira sobre mim.            

Morte, enfim. 

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domingo, 10 de abril de 2016

Desculpe



Desculpe
Por Eduarda Gomes


Desculpe, não era para ser assim. Eu deveria ser imune. Deveria ter aprendido. Deveria ter entendido. Deveria estar bem agora – vendo um filme ou comendo pipoca. Eu deveria ouvir músicas e não me lembrar de você. Eu deveria não te reservar um espaço nos meus sonhos e um pouquinho de esperanças. Eu deveria não ler mensagens antigas e sorrir feito uma menininha que acordou na véspera de natal.

Mas é assim.

Sinto muito por ser tão masoquista – por errar e insistir no erro. Por ser tão eu. Por não conseguir. Por evitar. Por não dizer. Mesmo que não correspondido, sou uma cópia de coisas erradas; sou problemática. Sou in-amável.  Sou amadora. Sou incerteza. Sou vento – do tipo ruim. Sou as quatro horas da manha das crises existências.

Você é meio-dia ou duas da tarde quando tem bolinho de chuva. Você é dormir sem hora para acordar e ver filme com pipoca. Você é sol, é nuvem, é vitamina D.  Você é abraço apertado, corpo colado e calor corporal. Você é leve, pluma, azul, bolha de sabão. É fácil, é doce. É meigo. Você é como respirar.

E ela.

Ah, ela.

É arco-íris, aurora boreal, eclipse lunar, cine belas artes, floco de neve, brilho, mar. É sonho vívido, livro de faz-de-conta, canção de ninar. É complexa. É linda. É inconstante. Volta e vai. Sem parar. Ela é a escolha. Ela é desejo. Ela é uma espera de quem não se importa de esperar.

Ela não é o certo, e muito menos eu. Mas ela é o erro que você preferiu amar.

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