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terça-feira, 12 de abril de 2016



O Último Apito
Por Lika Akamatsu 


Esse sempre foi o momento que mais quis conhecer, apesar de temê-lo um pouco. Estudei toda a minha vida para salvar outras vidas e garantir que a maioria não chegasse a este ponto. Meus pulmões já não estão funcionando como deveriam, o sangue já não corre tão rápido pelos vasos sanguíneos, os impulsos nervosos também já estão ficando fracos, não sinto nada disso, entretanto, só imagino que esteja acontecendo isso. Aliás, talvez eu saiba o que está acontecendo em cada canto do meu corpo. Se isso é triste ou não, eu não sei bem...

Imagino ter mais uns vinte minutos de vida; talvez mais, talvez menos, já não sei estimar... É a primeira – e única – vez que vivencio isso, então acredito que tudo seja possível. Eu queria poder ver mais uma vez minha mulher, faz tempo que não a vejo... Ah, ela é linda. Espero poder sentir um último toque das mãos da minha filha; será que ela chega a tempo? Faz uns meses que não nos encontramos, ela faz pós-graduação noutro estado.

É estranho. As pessoas devem ter a imagem de um senhor não muito velho inconsciente, mas ora, estou conseguindo pensar comigo mesmo, talvez aquilo tudo que estudei sobre o corpo humano estivesse errado? Não preciso mais me preocupar... Quem sabe isso não seja um sonho, não dá pra afirmar nada, não estudei a morte em si, só como chegamos até ela. Depois disso nenhum médico pode dizer o que acontece. A medicina estuda a vida, afinal.

Queria poder acordar amanhã mais uma vez, mas agora já não tem mais volta... Se bem que faz tempo que não acordo de verdade. Talvez eu aproveite essa ida ao outro plano – se ele existe mesmo – para me desculpar com aqueles que não consegui salvar. Quem sabe eu não reencontro o Robertinho, que saudades desse velho! Lembro-me do quão arrasado fiquei com sua ida, senti-me culpado por não poder ir ao seu enterro. Aliás, não pude ir ao enterro de nenhum deles...

O mais aterrorizante é estar tão só nesse “universo particular pré-morte” e ao fundo ouvir os apitos do monitor cardíaco; se estivesse na sala de cirurgia e fosse um paciente na mesma situação, diria que estava bem, mas olhe só, já sei que vou morrer; será que meus pacientes já tinham essa certeza momentos antes também? Não sei quanto tempo passou, nem quanto me resta. Talvez pouco, os apitos estão vindo num intervalo menor...

Lembro-me da época de jovem, do colégio, da faculdade, das aulas de anatomia que tanto amava, do meu melhor amigo que passou a me odiar por eu ter ficado com a garota que ele gostava (e eu casei com ela!), do nascimento da minha filha, de alguns muitos pacientes, daqueles que não pude salvar, daqueles que se salvaram por eles mesmos e eu só ajudei, da primeira morte que presenciei...
Essa é a última...

O monitor daria o apito final...

Eu não pude sentir as mãos de minha filha mais uma vez, espero que a lenda de que o espírito sai do corpo seja verdade, quero me despedir devidamente das mulheres de minha vida. Gostaria de pedir perdão por partir tão de repente. Mas a morte é assim mesmo, eu aprendi. Silenciosa.
Agora.

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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Logo nos encontramos


Logo nos encontramos
por Lika Akamatsu 


É assim mesmo, não posso mais nem pensar em te esquecer, porque já não sei como. Tu me confundes mais que Física, é mais complicado que ela; por que não podia ser como Matemática? É complicada, mas ao menos um pouco eu a entendo... Só que nem pra ser assim! Tu me deixaste perdida num limbo de sentimentos, dúvidas e problemas... E não posso mais negar, garoto, eu gosto mesmo de você. Mas eu devo me acostumar com a tua ausência, com monólogos monossilábicos, com um você invisível.
Pude te conhecer um pouco melhor, mas ainda sinto que existem imensidões a se descobrir sobre ti, e só com esse tantinho, posso afirmar que estranho seria se eu não me apaixonasse por você. Teu jeito tão peculiar e diferente é até um charme, as covinhas que se formam ao redor de um sorriso, então! Aliás, que sorriso! A feição aparentemente inocente contrasta com os traços masculinos bem marcados, com as mãos firmes, o olhar desafiador e o beijo fogoso.
Em alguns momentos, pego-me dividindo cobertores contigo, usando teus pés para aquecer os meus gelados, numa noite fria de inverno - ainda mais se for o inverno curitibano! Mas em segundos passa. É rápido e bem cômico. Tu me é tão misterioso que situações assim são inimagináveis e um tanto estranhas. Eu não te imagino de forma alguma, tu sempre me surpreendes, seja da forma mais simples possível. Isso! Surpreendente, você.
Se fosse definir-te em uma palavra apenas, ficaria entre "peculiar" e "surpreendente". Tu estás entre esses dois adjetivos. Talvez num limbo também...? Se estiver, vamos dividir os nossos limbos. Quero ficar um pouco mais com você, sem brincadeiras dessa vez. Não brinque comigo também. Deixa que eu me perca no teu abraço e perca-se no meu, logo nos encontramos, quem sabe. 


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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Poesias - Aquarela por Lika Akamatsu




Aquarela

por Lika Akamatsu



E já não é a primeira vez

Que vejo rolar pela face alva

Uma gota tão transparente

Quanto tua alma



Só precisas de mais cor

Dó se pinta com um pouco de sol

Tristeza, com amor

Vejas, ficarás melhor



Chores o quanto precisar

Mas deixa-me colorir tuas lágrimas

Quando se acalmar

Farei desenhos com aquarela


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