quinta-feira, 7 de abril de 2016

Logo nos encontramos


Logo nos encontramos
por Lika Akamatsu 


É assim mesmo, não posso mais nem pensar em te esquecer, porque já não sei como. Tu me confundes mais que Física, é mais complicado que ela; por que não podia ser como Matemática? É complicada, mas ao menos um pouco eu a entendo... Só que nem pra ser assim! Tu me deixaste perdida num limbo de sentimentos, dúvidas e problemas... E não posso mais negar, garoto, eu gosto mesmo de você. Mas eu devo me acostumar com a tua ausência, com monólogos monossilábicos, com um você invisível.
Pude te conhecer um pouco melhor, mas ainda sinto que existem imensidões a se descobrir sobre ti, e só com esse tantinho, posso afirmar que estranho seria se eu não me apaixonasse por você. Teu jeito tão peculiar e diferente é até um charme, as covinhas que se formam ao redor de um sorriso, então! Aliás, que sorriso! A feição aparentemente inocente contrasta com os traços masculinos bem marcados, com as mãos firmes, o olhar desafiador e o beijo fogoso.
Em alguns momentos, pego-me dividindo cobertores contigo, usando teus pés para aquecer os meus gelados, numa noite fria de inverno - ainda mais se for o inverno curitibano! Mas em segundos passa. É rápido e bem cômico. Tu me é tão misterioso que situações assim são inimagináveis e um tanto estranhas. Eu não te imagino de forma alguma, tu sempre me surpreendes, seja da forma mais simples possível. Isso! Surpreendente, você.
Se fosse definir-te em uma palavra apenas, ficaria entre "peculiar" e "surpreendente". Tu estás entre esses dois adjetivos. Talvez num limbo também...? Se estiver, vamos dividir os nossos limbos. Quero ficar um pouco mais com você, sem brincadeiras dessa vez. Não brinque comigo também. Deixa que eu me perca no teu abraço e perca-se no meu, logo nos encontramos, quem sabe. 


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domingo, 3 de abril de 2016

Estrela Decadente

Estrela Decadente
Por Caroline Moreira

           Ela tinha tantos sonhos quanto estrelas no céu, e cada constelação que descobria, eram vidas dispostas em um pedaço de papel. As figuras estampadas no telhado azul do mundo, não passavam de pontos cintilantes, assim, com algum tipo de descuido. Pareciam esquecidas pelo resto das pessoas. Mas cada vez que ela dava atenção por alguns segundos, não havia corpo celeste que ficasse mudo. Porém, o dia amanhecia e a garota se via perdida, um tanto sozinha. Ela passava a noite toda sonhando, e de dia não tinha sono. O seu travesseiro, no entanto, era abarrotado de sonhos.
           Às vezes, ela se sentia como se estivesse debaixo do seu cobertor, numa escuridão total, e ficava confusa se a noite era um véu sobre a cama do céu. Então, entre aquele sentimento que a prendia, sufocava, surgiu um ponto reluzente que a acompanhava. Ela tinha certeza de que os dias eram mais difíceis e obscuros que o anoitecer. Afinal, quando a noite chegava, ninguém enxergava o que ela escondia, ninguém via as lágrimas que inundavam os seus sonhos. Mas ela era uma poeira estelar, e cada vez que se debulhava em lágrimas, restava o pó e ela soprava. Brilhava feito estrela... Decadente.


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sábado, 2 de abril de 2016

Menina do cabelo azul


 Menina do cabelo azul
por Marina Rodrigues
Seus olhos misteriosos, suas palavras curtas, seus olhares ilusórios, sua boca puramente puta e seus cabelos azuis, que escorrem pelos seus ombros nus, balançando, tremulando com o assobiar baixinho do vento frio que percorre minha espinha, tentando-me. A menina de cabelo azul que deixa meus dias mais coloridos. Tornou-se meu vício. 
Depois mudou para o rosa, a leve franja recém cortada tremulando com o passar do vento — eu o invejava por poder tocar sem pudor em minha menina. Ela sempre alterando minha existência monocromática. Eu era um mero espectador de seu espectro de cores.
Mas ela era como o rosa cálido que pinta o céu no primeiro avistar da manhã, eu era o azul pálido que pinta o céu no crepúsculo ao fim de tarde. Ela era uma artista! Transformando cada olhar em uma obra-prima. Eu era um alienista, transformando cada podridão da sociedade em dinheiro para o sistema capitalista. Como fazer o oposto me amar? 
Desejo-a e anseio por cada um de seus beijos, seus toques, sua pele nua, seus pêlos eriçados roçando pelo meu corpo. Desejei-a mesmo sabendo o nosso fim, mesmo sabendo que o equilíbrio entre nós não era uma opção, a balança estava desregulada, era o fim da minha paixão. 
Um dia ela entrou em minha vida e disse: 
— O problema é esse: você prefere ver a vida a teus pés e eu...eu prefiro ver em tons pastéis. 


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segunda-feira, 14 de março de 2016

Itifalofobia



Itifalofobia 
Por Caroline Moreira



As manhãs se tornaram um desespero diário, fazer xixi naquela situação parecia improvável, ainda mais porque as suas mãos desajeitadas estavam trêmulas. Bater punheta vendo pornografia parecia distante da sua cruel realidade, apenas de pensar no que poderia acontecer, entrava em um estado de pânico incontrolável. Se ao menos a secretária do trabalho não tivesse seios tão fartos... Caso ele conseguisse controlar essa cabeça que não pensa! Todo o dia é a mesma coisa. O pior foi quando sua namorada tentou o excitar. Foram minutos estressantes, antes que  ele surtasse de vez. Um pau duro é assustador! Você já viu?

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Boneca de Pano


 Boneca de Pano
Por Caroline Moreira

Acolchoado de retalhos, distribuídos em um tecido lânguido. A picada familiar da agulha que invade outra camada e drapeja a epiderme. Das dobras e dos desdobramentos, a lembrança alcança – finalmente! – o posto de esquecimento. A cicatriz da costura desmanchada, nada mais significa de que ela não pôde ser contida. Semelhante a uma boneca de pano, lhe é suturada emoções. Não permitem que ela sinta, e mesmo assim, ela sangra.


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